Memórias

Bibliotecas de Almas

Bibliotecas de Almas

Cada margem anotada era um fio de voz. Dona Elisa passou quarenta anos reunindo esses fios num arquivo que ninguém pedia, mas todos precisavam.

Havia risos em romances tristes, receitas em poesia, telefones riscados em capítulos finais. Era uma biblioteca paralela, feita de gestos íntimos.

Quando a prefeitura anunciou o fechamento do prédio, os leitores apareceram com caixas e histórias. Não salvaram apenas o lugar — salvaram o que o lugar significava.

Dona Elisa organizou uma noite de leitura. Cada pessoa leu uma anotação alheia, com permissão e cuidado. O silêncio entre uma leitura e outra pesava como abraço.

No fim, a biblioteca permaneceu aberta. Não por decreto, mas por acordo tácito: enquanto houver margens em branco, haverá espaço para continuar.

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