A Geometria do Caos Urbano

Helena fotografava reflexos. Não por estética, mas por necessidade: era a única forma de enxergar a cidade sem ser engolida por ela.
Na esquina da Rua das Flores, um guarda-chuva vermelho virou ponto de fuga em meio ao cinza da tarde. Clique. Depois outro. Depois mais dez.
Entre um semáforo e outro, percebeu um padrão: pessoas desviavam do mesmo lugar, como se houvesse um obstáculo invisível no meio da calçada.
No dia seguinte, voltou com uma câmera analógica e paciência de arquiteta. Mediu passos, sombras, pausas. O caos tinha geometria — só faltava alguém disposto a olhar de lado.
Quando revelou os negativos, o obstáculo apareceu: uma placa antiga, enterrada sob camadas de propaganda. A cidade lembrava, mesmo quando fingia esquecer.


